
Muito se falou hoje do Senhor do adeus. O senhor abastado que para fugir à solidão que sentiu após a morte da mãe, se deslocava quase diariamente à zona do Saldanha em Lisboa para acenar às pessoas, cumprimentá-las e mandar beijinhos.
Nunca reparei nele... nunca. E hoje que "o conheci" fiquei com pena. Não sei explicar porquê, mas também eu queria um dia ter acenado áquele senhor.
Dei por mim para aqui perdida nos meus pensamentos... o que leva uma pessoa a fazer tal coisa?... É um extremo parece-me... E com isto dei por mim a pensar que sortuda sou. Que sortuda sou por ter a minha família e os meus amigos. Por estar rodeada de gente de quem gosto e que gosta de mim.
Já li de tudo hoje... chamarem ao Sr. do adeus de Poeta, de alguém que distribuia carinho por desconhecidos. Já li e vi o carinho que lhe retribuiram na homenagem que foi efectuada no saldanha onde centenas de desconhecidos se juntaram esta noite para dizer adeus a quem passava. Extraordinário não é?! E eu que nunca vi este senhor...
E mais... diz quem sabe que ele não ligava a provocações. Que ficava ali simplesmente a acenar, respondendo a buzinas, adeus e beijinhos.
Fiquei ainda a pensar... nos dias que correm, como é que as pessoas não levavam isso a mal? Será que afinal isto não está tão mal como se pensa? Que ainda se pode ouvir boa noite da boca de um desconhecido sem ficar com olhar desconfiado ou fazer cara feia?
Parece que sim, ou talvez fosse apenas para este senhor, para quem dizer adeus a anónimos era uma parte importante da sua rotina, assim como as idas ao cinema aos domingos.
É então um adeus de despedida este. Mesmo sem nunca o conhecer, tocou-me o coração. RIP João Manuel Serra
