
Sou o que se pode chamar uma autêntica mulher do séc.XXI, passo a descrever: trabalho 10 a 12 horas por dia, saio cedo e entro tarde em casa, a minha família nunca me vê o suficiente, assim como os amigos ou até o próprio ginásio a que me baldo consecutivamente por falta de tempo. A terapeuta da acupunctura lá me vai vendo, mas não com a frequência desejada, passo o tempo a correr entre a agência e os clientes sempre a tentar fazer crescer os números, durante a semana não sei o que é vida própria e ao fim de semana estou de tal forma desgastada que o único apetite que tenho é mesmo vegetar no sofá frente à TV e ao portátil. Deixei de ter tempo para jantar com amigos durante a semana, deixei de ter tempo para relacionamentos ou mesmo aventuras esporádicas. Deixei de ter tempo e disposição para dedicar à minha cadela que ironicamente toda a vida desejei ter. Não há manicura, nem pedicura. Não há cabeleireiro. Não há mimos, não há refeições decentes...
Mas tenho um ordenado maior... não assim tão maior como gostaria, mas ainda assim mais promissor. Mas pergunto-me... e valerá a pena? Descobri a resposta à minha própria custa: não!
Não vale a falta de tempo e a interrupção do reiki que há tanto desejava, não vale as gargalhadas e os serões agradáveis na companhia da família, dos amigos, dos namorados. Não vale o tempo no ginásio, não vale a brincadeira com a fiel companheira que me recebe de rabo a abanar todos os dias...
Não vale a tranquila leitura dauela revista que esperamos ansiosamente todos os meses... os telefonemas ou sms's dos amigos. Não vale o que se perde!
Distanciar-me do que mais gosto e de quem mais gosto, acima de tudo, distanciar-me de mim...
O isolamento, a falta de graça... tenho decididamente que repensar as minhas prioridades, mas porque vem aí um novo ano, aqui ficam as minhas 2 primeiras promessas:
- recomeçar o reiki
- ter mais tempo para mim.
Palavra de prozac! :)
E mesmo a propósito disto, deixo-vos um texto, que me serviu que nem uma luva, para todas como eu... não deixem de ler:
'Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado três vezes por semana, decido o cardápio das refeições, levo os filhos no colégio e busco, almoço com eles, estudo com eles, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana - e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás. Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora. Você é, humildemente, uma mulher. E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável.
É ter tempo. Tempo para fazer nada. Tempo para fazer tudo. Tempo para dançar sozinha na sala. Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor. Três dias. Cinco dias!
Tempo para uma massagem. Tempo para ver a novela. Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza. Tempo para fazer um trabalho voluntário. Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas. Voltar a estudar. Para engravidar. Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado. Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina? Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo! Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente. Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que se lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir dessa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante'.
(Martha Medeiros)
